IA para detectar câncer de pele avança no Brasil e mostra como a tecnologia pode acelerar o diagnóstico

Dominic Valeri
Por Dominic Valeri
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IA para detectar câncer de pele avança no Brasil e mostra como a tecnologia pode acelerar o diagnóstico

Sistema desenvolvido no Rio Grande do Sul usa inteligência artificial para apoiar a triagem de lesões suspeitas na rede pública de saúde.

A inteligência artificial começa a ganhar espaço em uma etapa especialmente sensível da medicina: a identificação de alterações que podem indicar câncer de pele. Um exemplo recente vem de Porto Alegre, onde a Procempa apresentou, em uma conferência internacional de tecnologia realizada em São Paulo, o SkinScan, aplicativo desenvolvido em parceria com o Núcleo Integrado da Pele (Nipele) e a Santa Casa de Porto Alegre. A ferramenta foi criada para apoiar a avaliação inicial de lesões de pele e ajudar a direcionar casos potencialmente urgentes para atendimento especializado. Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, o modelo foi treinado com cerca de 40 mil imagens e apresentou, em testes preliminares, 87% de precisão na identificação de lesões suspeitas. (Prefeitura de Porto Alegre)

A novidade levanta uma pergunta importante para médicos e pacientes: a inteligência artificial já pode diagnosticar câncer de pele? A resposta exige cuidado. Tecnologias desse tipo podem auxiliar na triagem e na organização do atendimento, mas não substituem a avaliação de um profissional habilitado nem dispensam os exames necessários para confirmar uma doença.

Como funciona a inteligência artificial usada para analisar lesões de pele

O SkinScan foi desenvolvido para utilizar imagens de lesões cutâneas como parte de uma avaliação automatizada. De acordo com a Procempa, o sistema foi treinado com aproximadamente 40 mil imagens de lesões e combina múltiplos modelos especializados por meio de técnicas de calibragem. A proposta é produzir informações padronizadas que possam auxiliar profissionais da atenção primária e equipes responsáveis pela regulação a identificar situações que mereçam maior prioridade. Nos testes preliminares divulgados pela companhia pública de tecnologia de Porto Alegre, a ferramenta alcançou 87% de precisão na identificação de lesões consideradas suspeitas. (Prefeitura de Porto Alegre)

O ponto mais importante é compreender o papel que a IA desempenha nesse processo. A tecnologia não deve ser interpretada como uma espécie de médico digital capaz de confirmar sozinha um câncer, porque uma imagem suspeita não equivale a um diagnóstico definitivo. Na prática, ferramentas de apoio podem ajudar a organizar grandes volumes de informações, reconhecer padrões e sinalizar casos que precisam de avaliação especializada, mas a decisão clínica continua dependendo da análise profissional e do conjunto de evidências disponíveis para cada paciente.

Esse cuidado é especialmente relevante porque a medicina envolve diferentes tipos de lesões, características individuais e contextos clínicos que podem não estar totalmente representados em uma imagem. Uma tecnologia pode apresentar bons resultados em determinado conjunto de dados e, ainda assim, precisar de validação adicional antes de ser utilizada amplamente em diferentes populações, serviços e condições de atendimento. A própria Anvisa considera que softwares destinados a finalidades médicas podem se enquadrar como dispositivos médicos e precisam atender requisitos regulatórios de segurança e desempenho quando utilizados para funções clínicas. (GOV.BR)

Por que a IA pode ajudar a reduzir o tempo até uma avaliação especializada

O potencial mais imediato de uma ferramenta como o SkinScan está na triagem. Em sistemas públicos de saúde, o desafio não é apenas descobrir uma tecnologia capaz de reconhecer determinados padrões, mas também organizar o caminho percorrido pelo paciente até chegar ao especialista. Quando existe grande demanda por consultas dermatológicas, uma solução que ajude a identificar quais casos precisam de avaliação prioritária pode contribuir para uma utilização mais organizada dos recursos disponíveis. A Procempa afirma que a aplicação foi pensada justamente para apoiar a atenção primária e auxiliar na priorização de casos urgentes que precisam chegar ao dermatologista. (Prefeitura de Porto Alegre)

Essa lógica pode ser particularmente relevante para doenças em que o tempo entre a identificação de uma alteração e a investigação especializada possui importância clínica. A inteligência artificial, nesse cenário, não precisa substituir o médico para produzir valor. Ela pode funcionar como uma camada adicional de apoio, capaz de padronizar imagens, organizar informações e indicar quais situações merecem maior atenção, enquanto o profissional continua responsável por interpretar os resultados e decidir os próximos passos.

A experiência também mostra uma tendência maior da saúde digital brasileira: utilizar tecnologias desenvolvidas localmente para resolver problemas concretos do SUS. Em agosto, a Anvisa lançou um novo edital para selecionar projetos de dispositivos médicos inovadores, incluindo tecnologias baseadas em inteligência artificial aplicada ao diagnóstico. A iniciativa dá continuidade a um projeto-piloto criado em 2023 e demonstra que a regulação brasileira está buscando acompanhar o avanço de soluções digitais e de outras tecnologias médicas. (GOV.BR)

Ao mesmo tempo, a expansão dessas ferramentas exige critérios de validação, segurança e monitoramento. A Anvisa ressalta que produtos médicos precisam demonstrar segurança, qualidade e desempenho compatíveis com sua finalidade, enquanto softwares com função médica possuem regras específicas de regularização. Isso significa que o avanço tecnológico precisa caminhar junto com avaliação científica e regulatória, especialmente quando uma ferramenta pode influenciar decisões relacionadas à saúde de uma pessoa.

O que muda para médicos e pacientes com o avanço da IA na dermatologia

Para os médicos, a chegada de ferramentas de inteligência artificial tende a mudar principalmente a forma de trabalhar com informação. Em vez de enxergar a IA como substituta da consulta, a tendência é utilizá-la como instrumento complementar para análise, triagem, documentação e apoio à decisão. O Conselho Federal de Medicina estabeleceu, em sua Resolução nº 2.454/2026, que médicos podem utilizar sistemas de IA como apoio à prática clínica, desde que sejam respeitados os limites éticos e legais, e reforçou que a autonomia profissional deve ser preservada. (Portal Médico)

Isso significa que uma recomendação produzida por um algoritmo não deve ser aceita automaticamente. O médico precisa considerar a qualidade da ferramenta, suas limitações, o grau de evidência científica, a situação clínica do paciente e os demais dados disponíveis. A própria regulamentação do CFM prevê o direito de recusar sistemas que não apresentem validação científica adequada, certificação regulatória pertinente ou que contrariem princípios éticos, técnicos ou legais. (CFM Sistemas)

Para o paciente, a principal mudança pode ocorrer no caminho até o atendimento, e não necessariamente na consulta em si. Se ferramentas desse tipo forem validadas e implementadas de maneira adequada, elas poderão contribuir para identificar situações que merecem investigação especializada com maior rapidez. Mas uma fotografia feita por celular ou analisada por inteligência artificial não deve ser usada pelo paciente para confirmar ou descartar sozinho uma doença. A Anvisa já alerta, de forma geral, que dispositivos e softwares com finalidade de diagnóstico precisam apresentar desempenho adequado e que informações tecnológicas não devem substituir avaliação profissional. (GOV.BR)

O caso do SkinScan mostra, portanto, uma etapa importante da evolução da medicina digital brasileira: a inteligência artificial começa a sair do campo experimental e a ser testada em problemas concretos de saúde pública. O desafio agora é transformar bons resultados iniciais em ferramentas validadas, seguras, reguladas e capazes de funcionar de maneira consistente em diferentes contextos. Para médicos, isso significa aprender a trabalhar criticamente com algoritmos; para pacientes, significa compreender que tecnologia pode acelerar caminhos de cuidado, mas não elimina a necessidade de avaliação médica. Qualquer alteração suspeita na pele deve ser avaliada por um profissional de saúde, especialmente quando há mudança de tamanho, forma, cor, sangramento ou evolução da lesão.

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