A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu uma nova meta para a preparação internacional diante de epidemias: permitir que todos os países desenvolvam capacidade para detectar e compreender novas ameaças à saúde em até 24 horas após seu surgimento. O objetivo integra uma estratégia de cinco anos do Hub de Inteligência sobre Pandemias e Epidemias, com horizonte até 2030.
A iniciativa foi anunciada em 12 de outubro de 2026, durante a abertura da Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim, na Alemanha. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a proposta busca integrar diferentes fontes de informação e ampliar a colaboração entre autoridades sanitárias, pesquisadores, instituições acadêmicas e organizações internacionais.
A meta não significa que o surgimento de uma doença possa ser evitado ou que toda ameaça será controlada imediatamente. O foco está em reduzir o intervalo entre os primeiros sinais de um evento incomum e a produção de informações confiáveis sobre sua origem, seu comportamento e seu possível impacto. Com dados disponíveis mais cedo, governos e serviços de saúde podem ganhar tempo para investigar e organizar respostas.
Estratégia mira resposta mais rápida a novas ameaças
O plano da OMS está estruturado em cinco frentes. A primeira é o monitoramento de fontes abertas, com uso de ferramentas de inteligência artificial para identificar sinais relevantes em grandes volumes de informações. Esses sistemas podem auxiliar na triagem de alertas e na localização de padrões que exigem avaliação de especialistas, sem substituir a análise epidemiológica e a confirmação laboratorial.
Outra frente envolve a vigilância genômica de patógenos. O sequenciamento genético permite estudar características de vírus, bactérias e outros agentes infecciosos, além de acompanhar alterações em seus genomas. Quando associado a informações clínicas, laboratoriais e de circulação, esse recurso pode contribuir para compreender com maior rapidez a natureza de uma ameaça e orientar investigações.
A estratégia também inclui modelagem e ciência de dados. Modelos computacionais podem organizar informações de diferentes origens e apoiar a análise de cenários. No entanto, seus resultados dependem da qualidade, da atualização e da representatividade dos dados utilizados. Por isso, a tecnologia é apresentada como instrumento de apoio à decisão, e não como mecanismo autônomo capaz de eliminar incertezas.
Inteligência artificial será usada no monitoramento de sinais
De acordo com a OMS, o hub já trabalha com 160 Estados-membros, 190 organizações parceiras e milhares de cientistas e formuladores de políticas. A plataforma de inteligência epidemiológica baseada em fontes abertas reúne mais de 4 mil especialistas e é utilizada por mais de 125 países e 30 organizações regionais e internacionais.
Esse tipo de rede amplia a capacidade de reunir indícios que podem aparecer de forma dispersa em diferentes locais. Informações públicas, observações de profissionais, dados laboratoriais e registros de vigilância podem apontar para alterações que merecem investigação. A identificação automatizada de sinais, contudo, precisa ser acompanhada por validação científica, comunicação entre instituições e capacidade local para confirmar o que está acontecendo.
Vigilância colaborativa e conceito de Saúde Única
O plano da OMS também prevê uma vigilância colaborativa baseada no conceito de Saúde Única. Essa abordagem considera a relação entre saúde humana, saúde animal e ambiente, reconhecendo que eventos capazes de afetar populações podem envolver diferentes espécies e ecossistemas. A integração dessas áreas pode ajudar a construir uma visão mais ampla sobre riscos que ultrapassam fronteiras administrativas.
Na prática, a cooperação é decisiva para que um alerta seja transformado em conhecimento útil. Países precisam compartilhar informações de maneira segura, com critérios compatíveis e respeito às responsabilidades de cada autoridade. Sem comunicação confiável, mesmo sistemas avançados de análise podem produzir respostas fragmentadas ou atrasadas.
Sistemas digitais terão papel na troca de informações
O quinto eixo da estratégia é o desenvolvimento de sistemas digitais seguros para compartilhar e analisar informações. A proposta envolve criar condições para que dados relevantes circulem entre instituições e sejam utilizados por equipes autorizadas, mantendo atenção à proteção, à governança e à qualidade dos registros.
Para a medicina e a saúde pública, a combinação entre vigilância digital, genômica e modelagem pode apoiar investigações laboratoriais, decisões de vigilância e preparação de serviços. Também pode favorecer o desenvolvimento mais rápido de testes, vacinas e outras medidas, desde que os achados sejam confirmados por pesquisa e incorporados a processos regulatórios e sanitários adequados.
A meta estabelecida para 2030 representa, portanto, um esforço de preparação e coordenação internacional. Detectar uma ameaça em até 24 horas é apenas uma etapa: compreender o evento, avaliar seus riscos e responder de forma proporcional dependerá da infraestrutura de cada país, da disponibilidade de profissionais especializados e da disposição para cooperar. A OMS pretende usar o novo ciclo do hub para aproximar esses elementos e fortalecer a capacidade global de reação antes que sinais isolados se transformem em crises de maior alcance.
